Samba de uma meta só

Antonio Corrêa de Lacerda[1]

Artigo publicado no Estado de São Paulo, em 10 de julho de 2016

 

SAMBA, acrônimo para Stochastic Analytical Model with a Bayesian Aproach é um dos modelos de projeção utilizados pelo Banco Central (Bacen) como um dos balizadores das decisões de política monetária. Trata-se de um processo de simulação, que considera variáveis e seus efeitos para a inflação futura. É importante por buscar sistematizar os impactos dos vários choques de custos na inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor – Amplo (IPCA).

 

O CMN (Conselho Monetário Nacional, formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do Banco Central) fixa regularmente a meta de inflação de cada ano. Em 30 de junho passado o CMN fixou a meta de 2018 em 4,5%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos (entre 3% e 6%), mesmo objetivo a ser perseguido em 2017.

 

A questão é que para isso, o BC anunciou, na mais recente edição do seu Relatório Trimestral de Inflação, que vai adiar o inicio da redução dos juros. Ou seja, seguiremos convivendo ainda um bom tempo com taxas de juros reais muito elevada, que é justificada para controlar a inflação, considerada elevada.

 

Ao contrário do que às vezes é disseminado, o Brasil não convive cm uma inflação elevada, considerando países de porte e estagio de desenvolvimento minimamente comparáveis. A inflação brasileira é aparentemente elevada somente quando confrontada com países próximos geograficamente do Brasil, mas que tem pouca relação com a sua estrutura e porte. É o caso do Perú, por exemplo, em que a inflação nos últimos doze meses é de 3,3%, ou do Chile com 4,1%.

 

No entanto, no âmbito dos Brics, por exemplo, o quadro é outro. São grandes economias nas quais transições relevantes como urbanização, maior qualificação dos profissionais, amenização das desigualdades regionais e de renda, por exemplo, se traduzem em inflação. Neste caso ela não seria decorrente apenas de correções de preços, mas de alterações de preços relativos. Neste grupo de países, a exceção da China, que vive uma nova fase com a desaceleração do crescimento robusto e queda das commodities, todos os demais apresentam uma inflação semelhante à media brasileira, como Africa do Sul, com 6,1%, Índia, com 5,8%, ou mesmo mais elevada como o caso da Rússia, com 7,3%. Outras economias em transição como, Turquia, com 6,6% e Colômbia, 8,2%.

 

É curioso que o presidente do Bacen Ilan Goldfajn, em entrevista ao Valor Econômico de 4/7/2016, “Inflação na meta é questão de 1ª ordem”, tenha afirmado, sem ser questionado, que “temos um objetivo de longo prazo que é trazer a inflação (brasileira) para 3%, que é a média dos emergentes”.

 

No caso brasileiro chama ainda a atenção o papel da indexação, que é o reajuste automático de preços e contratos baseado na inflação passada. O Regime de Metas de Inflação, implementado em 1999, evoluiu pouco desde então. Continuamos convivendo com metas restritas de inflação sem alterar a estrutura de formação de preços e mesmo a captação das expectativas futuras.

 

Seria ainda oportuno discutir o papel do Bacen considerando um quadro econômico domestico e internacional tão confuso e conturbado. Desde a crise de 2008 os principais bancos centrais do mundo vêm praticando juros próximos de zero, ou mesmo negativos, visando privilegiar a produção, investimento e consumo.

 

Permanecer refém de uma meta só, desconsiderando nível de atividades e emprego, por exemplo, restringe o raio de ação da política monetária. Analogamente ao “Samba de uma nota só”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, ele almeja somente o comportamento dos preços, sem considerar o nível de atividades, ou emprego. Como o juro não é um processo neutro, favorecendo os mais ricos em detrimento dos demais, já passou da hora de um questionamento sério a respeito do modelo, em prol da democratização da política econômica.

 

[1] Sócio-Diretor da AC Lacerda




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